A Alemanha ocupou grande parte das suas aulas de História desde a quinta-série. Gostando ou não, foi tempo demais dedicado a memorizar o Tratado de Versalhes ou as consequências do dia 2 de maio de 1945. Eu, que adorava, dediquei anos a imaginar como seria visitar cada um dos lugares retratados nos livros e filmes. Conseguia pensar no cheiro das ruas, no frio cortante e até em uma roupa de agente dupla, bem cortada, valorizando a cintura, mas discreta. Não posso descrever a minha decepção. Os bombardeios destruíram mais de 80% da cidade e não sobrou quase nada para materializar minhas fantasias.

A melhor solução que encontrei – e que gostaria de ter feito no primeiro dia – foi um walking tour da Berlin Walks.  É uma visita a uma cidade fantasma, mas mesmo pela ausência é possível compreender bem a geografia e as cicatrizes.

Escolhemos o Infamous Third Reich Sites Tour, que começa no Reichstag, onde  até hoje funciona o parlamento alemão. Concluído no final século XIX, o prédio foi destruído por um incêndio em 1933, cheio de teorias conspiratórias para explicá-lo. Em 1992, ganhou a cúpula de vidro que gerou um aumento enorme nas visitas. A vista e a rampa em caracol até o topo tornam esse passeio fundamental. (Alerta: uma vez que você chame o Reichstag de Hashtag é o suficiente para que você nunca mais consiga falar essa palavra do jeito certo.)

Logo depois você chega à uma área descampada e encontra apenas uma placa, que não chamaria atenção do mais atento dos humanos. Foi ali que Hitler e sua gang morreram em um dos poucos bunkers que foi implodido. A decisão de fazer daquele ponto um estacionamento prosaico é para desestimular que o lugar se torne point de adoração dos neonazistas. O Exército Vermelho, na sua inquestionável eficiência de destruição, deu cabo nos corpos antes que os Aliados pudessem encontrá-los.

Memorial aos Judeus Mortos da Europa vem em seguida e é uma visão perturbadora. O quarteirão idealizado pelo arquiteto Peter Eisenman é tomado por 2.711 blocos de concreto e nos dá a sensação de um labirinto de túmulos. Estranhamente as crianças acham um ótimo lugar para brincar de pique-pega e os adolescentes usam para escalada e de apoio para fumar um cigarrinho. No subsolo, um registro didádico e emocionante sobre o holocausto, onde você aprende que as câmeras de gás foram uma solução para lidar com o alcoolismo, depressão e paranóia dos soldados designados a executar os planos de “limpeza étnica”.

O passeio termina na Topografia do Terror, que é dos maiores centros de documentação sobre a Segunda Guerra e ironicamente o antigo quartel-general da Polícia Secreta do Estado – SS. A Gestapo compartilhava o espaço e exercia funções semelhante. Essa foi mais uma estratégia acertada para gerar competição, divisão e portanto, controle.

São quatro horas de caminhada, que passam sem você perceber. Nossa guia foi Caroline, uma inglesa cheia de carisma e um pouco de baba  no canto da boca. Gostei tanto que me prometi fazer os outros nove roteiros. Até agora, parece que menti.




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