DALÍ, DO ÓDIO AO AMOR

| FIGUERES E CADAQUES

Um dia eu odiei o Dalí. Não era um ódio leve, discreto, era um ódio febril. Da a onipresença dos museus às milhares de cópias que suas obras têm, tudo me irritava. Sentia por ele o que hoje sentimos pelo Romero Brito. Quer dizer, não era a mesma coisa. O Dalí nunca me deu enxaqueca.

O primeiro parágrafo não nega. Em algum momento tudo mudou e Dalí ganhou um afeto que a maioria dos meus tios nunca recebeu. A revolução começou no Teatro Museu Dalí, que fica em Figueres. O melhor jeito de ir é de trem, o que vai te custar uns 30 euros (ida-e-volta) e demorar 2 horas para cada trecho. O caminho é lindo e, entre nós, dá uma certa pena quando você percebe que chegou.

O museu é, sem sombra de exagero, um dos mais fantásticos que já visitei. Ele foi construído em meio as ruínas de um teatro e as obras ali expostas são fabulosas, imensas na sua originalidade e clamam pelo olhar próximo e por todos os sentidos atentos. Pelo labirinto de pedras, vidros e plantas, você entende que ele é realmente gênio e a popularização do seu trabalho foi um ganho para todos.

Ao lado do museu, ficam as jóias dele, que também merecem palmas, admiração e uma ponta de inveja de quem um dia pode usar aquilo. Esse passeio vai levar 3 horas e vai ser mais agradável quanto menos gente estiver lá, por isso é bom chegar cedo e, se puder, durante a semana. Figueres é uma cidade bonitinha, mas não é aqui que você quer estar. A próxima parada é Cadaques, onde fica a Casa Salvador Dalí.

O plano que recomendo é: chegar na cidade – que é linda daquele jeito que faz com que você queira vender tudo o que tem e ficar ali pra sempre -, deixar sua mochila em uma pensão bonitinha e passear pelas ruas de pedras, com suas casas caiadas. Minha sugestão para jantar é o Compartir, que é lindo e tem uma comida da Cataluña de deixar os separatistas orgulhosos. Boa parte da equipe passou pelo El Buli, o que quer dizer que ninguém está ali para brincadeira.

No dia seguinte, depois de um café da manhã preguiçoso e com direito a muitos pãezinhos com tomate e jamón serrano, vá para a casa do supracitado rapaz e entenda que metade de quem ele foi se deve a um amor imenso por uma artista fantástica, Gala. Não há nada que eu adore mais do que visitar casas – de célebres ou anônimos – e essa está na lista das mais especiais. O design da casa e o surrealismo presente em cada canto, conta muito, mas o que mais me impressionou foi quão palpável são a criatividade e a parceria dos dois.

Saindo de lá, alugue uma lanchinha por uma hora e sinta o que Dalí sentia nos seus passeios diários pelo oceano. Se estiver pronto, volte para Barcelona. Se não, fique mais um pouco e se terminar morando aqui, por favor me chame para passar o Natal.

 




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